
Good night, my love, the brightest star in my sky.
adeus. obrigado. até sempre.







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Os comentários de Kafka sobre fotografia permitem concluir que para ele esta forma de representação da vida era, no fundo, suspeita. Friedrich Thieberger, por exemplo, lembra-se de ter encontrado Kafka na rua numa altura em que levava debaixo do braço uma caixa disforme, destinada a ampliar fotografias. «Fas fotografias?» foi, segundo escreve Thieberger, a pergunta atónita de Kafka, que acrescenta: «E ainda por cima amplia-as!». Também as obras de Kafka contêm muitos sinais do horror indefinido que ele sentia perante as iminentes transformações da humanidade no início da era da reprodução técnica, nas quais via talvez desenhar-se o fim do indivíduo saído da cultura burguesa. A liberdade de circulação, já de si bastante débil, dos heróis dos seus contos e romances vai sendo mais limitada à medida que são desenvolvidos, ao mesmo tempo que surgem personagens que nascem já sob uma série inescrutável de leis, como os funcionários do tribunal, os dois secretários idiotas e os três hóspedes de A Metamorfose, órgãos executivose cargos cuja natureza puramente ficcional, amoral, é claramente mais adequada a este novo estado de coisas. Na era do Romantismo, o doppelganger, que começou por despertar o medo das máquinas fotográficas, era ainda um fenómeno fantasmagórico e excepcional. Toda a técnica da cópia fotográfica depende em última análise do princípio da duplicação perfeita do original, da potencial produção infinita de cópias. Bastava pegar num desses cartões estereoscópicos para ver tudo a dobrar. E como a cópia perdurava depois de ter desaparecido o copiado, instalava-se a suspeita incómoda de que o original, pessoa ou natureza, tinha um grau de autenticidade inferior à cópia, de que a cópia desgastava o original, do mesmo modo que se diz que aquele que encontra o seu doppelganger se sente destruir.
sebastiano luciani (veneza 1485-roma 1547), vulgo sebastiano del piombo, é um dos meus pintores favoritos. na gemaldegalerie de berlim, entre 20 de junho e 28 de setembro, o magnífico pintor maneirista veneziano será objecto de uma exposição e muito mais do que isso de um, espera-se, fabuloso catáligo que corrigirá, à luz de novos estudos, a própria visão cinzenta que dele faz giorgio vasari nas suas vite. de facto, antecipando as novidades de tão importante estudo, sebastiano del piombo, protegido de miguel ângelo, e até há pouco considerado um pintor menor nas primeiras décadas de quinhentos, parece ter funcionado - mesmo no que diz respeito aos mecenas e à fama - como o terceiro vêrtice entre os dois monstros da pintura italiana. revelou-se um grande rival do próprio rafael e chegou a propor a miguel ângelo adoptar a técnica da pintura a óleo para a obra do juízo final no fundo parietal da capela sistina, técnica que conseguiu «fixar» depois das tentativas de leonardo, opinião aliás que coincide com a ruptura com o seu protector. se vasari parece reduzir sebastiano a um mero discípulo do il divino, a grande e maravilhosa piedade, do museu cívico de viterbo, baseada num cartão do mestre e indicadora da colaboração entre os dois pintores, será porventura o primeiro exemplo de um cenário nocturno realmente conseguido - onde as referências miguelangelescas do desenho são evidentes da natureza «sibilesca» de da Virgem e em alguns pormenor do corpo de Cristo. tudo parece indicar que a sua rivalidade com o grande rafael foi vencida quando, face a uma encomenda de giulio de médicis, o pintor urbinense não consentiu que a sua famosa transfiguração fosse exposta, lado a lado, com a ressureição de lázaro de piombo...

o que fazer quando e depois de se ser atacado por um trio de homunculus ? partindo do princípio que se é apanhado de supresa por exemplo pelas costas ou por um dos flancos pois temos dois é muito difícil evitar qualquer fuga pois o assalto é tudo como que assim inesperado. se te derem com pouca ou nenhuma delicadeza um cumprimento com um punho directo numa das tuas faces pois tens duas muito dificilmente manterás o equilíbrio mas no mínimo deves evitar cair no chão pois o resultado pode ser um sapateado por parte do agressor em toda a linha do teu corpo com principal incidência na cabeça vá-se lá saber a razão de tão grande capricho. cercado por três adolescentes que grunhem qualquer coisa é bom que mantenhas a música a tocar no teu walkman pois nada de especial devem ter para te dizer pois tudo o que poderão dizer se tornará inevitavelmente incompreensível o teu mundo moral. ora bem. a tua capacidade de reacção seria minimamente decente se te exercitasses diariamente ou aprendesses uma qualquer arte marcial partindo do princípio que o boxe está fora de questão para pesos plumas a não ser que não o sejas claro está. todavia, sem nenhuma destas armas pessoais e com três homúnculos espumantes ao teu redor deves permanecer o mais calmo possível e tentar continuar a caminhar devagarinho. o mais certo é que o próximo passo dos três estarolas seja empurrar-te contra uma parede e aí deixarás de ter qualquer hipótese de escape. não sendo os ditos cujos minimamente formados em coisas da memória a tua imitação de bogard ou de outro durão do velho cinema americano não te servirá de nada pois nesse preciso momento mesmo que queiras dizer qualquer coisa do tipo «are you fukin' talkin' to me?» ou mesmo as coisas mais banais e com um raiz de antecipação tal como mas o que é que está a acontecer, o que é que vocês querem, querem um cigarrito, querem dinheiro, mas o que é que eu vos fiz, de onde me conhecem, não vos posso ter batido nos tempos da primária porque tenho idade para ser vosso bisavô e coisa e tal nada disto resultará pois agora é o momento deles. a táctica é a seguinte. atenta. é de génio. um deles fica à tua frente e tenta controlar os gritos animalescos de quem te socou berrando que continua a urrar pois quer mais luta corpo a corpo enquanto que o terceiro situado às tuas costas te saca a carteira e ultrapassa-te a correr como se tivese fogo no rabo seguido pelos gritos histéricos dos seus dois amiguinhos. neste momento o mais importante é manter a calma. começar a gritar venham cá é perigoso porque eles podem mesmo vir e então está o caldo entornado e em vez de um carinho na face levas com um longo e doloroso abraço de um polvo de seis mãos e seis pernas. não deves igualmente protestar e chamar nome inapropriados às mãezinhas dos meninos pois com toda a certeza a culpa deve ser dos avós ou de familiares afastados. nunca da mãezinha ou do paizinho. podes culpar o governo mas não adianta. o governo não é uma pessoa. é uma abstracção. também será infrutífero gritar e perguntar-lhes os nomes de cada um para posterior investigação ou então por curiosidade pessoal pois o estado de excitação dos celerados será tal que certamente não se lembrariam de tão difícil questão. não esqueças que o estado de fuga de três adolescentes com uma carteira de um transeunte qualquer que nunca viram na vida os conduz a um estado próximo de alucinação no seu estado mais puro. nesse momento de puro atletismo de alta competição a carga de adrenalina dos rapazolas não deve ter escala médica mensurável. também não adianta dizer-lhes coisas como obrigadinho pelo soco ou estava mesmo a precisar de um abanão porque tenho sido um mau rapaz ou estava cheio de sono e agora já não. não resulta. não te ouvirão porque a distância percorrida será já assinalável e a quadratura das ruas públicas afastam tão fantástica locomoção do teu campo de visão. o passo seguinte é como é evidente telefonar ao 112 isto se não te abafarem o termo tem tudo a ver com os conjurados o telefone móvel. deves descrever a tua situação da forma mais simples possível do estilo acabei de ser agredido e assaltado na rua tal e logo a voz do outro lado te fará perguntas do foro médico para avaliar o teu estado de saúde. no caso de não necessitares de um veículo de reanimação fazem-te o favor de telefonar directamente para a esquadra da zona em questão isto se viveres numa espécie de grande cidade pois se for numa aldeia ou numa pequena vila as forças de segurança ainda estarão certamente a dormir se a cena se passar ao raiar da manhã. esperarás então pela auto-designada autoridade. ela aparecerá entre os quinze minutos à metade de uma hora. um agente da autoridade levantará o auto. far-te-á perguntas do estilo como se chama onde vive que idade tem e outras coisas mais ou menos pessoais e depois pedir-te-á para descrever a situação. interessar-lhe-á saber se a pessoa agredida que és tu partindo do princípio que te consideras agredido pois poderás ir à tua vida e nem sequer pedir nenhum tipo de ajuda mas estava eu a dizer que o dito agente te perguntará se reparaste em algo distinto como por exemplo uma tatuagem ou qualquer distintivo que ligue o grupo ou mesmo um só indivíduo a uma claque de futebol ou que tipo de roupa usavam ou até poderá interessar-se por coisas que para ti te parecerão estranhas questões como: algum deles usava boné? é bem provável que se o acontecimento que viveste apenas tenha a duração de poucos segundos as tuas respostas sejam no mínimo evasivas para o teu interlocutor através de uma série de rotundos não ou não ou não ou foi tudo muito rápido ou cairam-me os óculos e como tal foi difícil fixar pormenores pois não me recordei do truque de transformar os meus olhos num oriental ou mesmo desculpe mas começou uma chuva miudinha e eu comecei a pensar se não teria sido melhor ter trazido o guarda-chuva. sente-te livre para pedir ajuda ao agente da autoridade para tentar percorrer contigo o lajedo do acontecimento e encontrar os teus óculos caso os uses e poderá até ser que éis que eles aí estão a descansar no granito. ora, depois de tudo isso, o agente dir-te-á que te deves deslocar à polícia no dia seguinte e depois ao instituto de medicina legal com uma notificação nas mãos para que sejam avaliadas as tuas lesões corporais ou não. a dia seguinte será sempre um novo dia. é muito improvável que sejas assaltado novamente. se o receio for monstruoso poderás sempre ficar em casa e encomendares qualquer coisa para trincar até ultrapassares os teus medos. ou podes com muita sorte logo depois dos primeiros raios de sol receber um telefonema do dito agente que se deslocará a tua casa e te entregará pessoalmente a notificação para ires no dia seguinte ao instituto de medicina legal realizar os referidos exames médicos e como é evidente o consciente e amável agente da autoridade perguntar-te-á se te recordas de mais algum pormenor para além daquela obscura lembrança do dia anterior que se ficou pelo eram três néscios com menos de dezoito anos e um deles era mais baixo que o dos punhos e mais moreno do que este e talvez do que o terceiro que para mal dos meus pecados não tive o prazer de fixar com o meu olhar. a partir daqui irás ou não pois fica ao teu critério ao instituto de medicina legal se os lesões forem graves ou então aproveitarás a oportunidade para usufruires uma consulta preventiva. torna-se evidente que o registo de assalto e agressão terá que passar pelo dito exame pois de outra forma não há prova provada de nada. deves por isso tentar conservar alguma parte do teu corpo lesionado pois caso contrário e respirando saúde passarás o exame com brilhantismo e ficas de mãos a abanar. o dia seguinte poderá igualmente trazer-te algum golpe de sorte como por exemplo receberes um telefonema de alguém a informar-te que tem na sua posse alguns dos teus cartões que encontrou no meio da rua. nesta situação deves encontrar-te com ele para ele te devolver a documentação e ficará sempre bem propores a partilha de uma bebida ou outro tipo de compensação. se a pessoa em questão for honesta apenas ficará feliz por fazer um outro feliz. no meio de tudo isto podes todavia passar por um grande desapontamento. os cartões que os três informados rapazes não acharam dignos de levarem consigo deverão refereir-se a instituições de saúde do tipo sistema nacional de saúde ou então a lojas de banda desenhada ou mesmo o próprio cartão da tua companhia do teu telefone móvel que se revelará inútil quando o roubo não comportou tão utilíssimo objecto. toda esta situação é perfeitamente normal no caso de o bando de salteadores não usarem capas e voarem mas revelarem uma saúde impecável como se confirmou pela louca correria com que enveredaram rua abaixo depois de terem ficado na posse de um objecto pessoal de outrém com cartões inúteis e uma nota de cinco ou dez euros o que dará no mínimo para comprar três bonés se não forem de marca segundo se pode conjecturar. não será necessário recordar a ninguém que a primeira coisa a fazer aquando de um roubo deste calibre será telefonar para a linha directa do seu banco pessoal e anular de imediato todo e qualquer cartão de débito ou crédito que tenha sido furtado pois tal facto está para além do bom senso sendo sim de natureza instintiva dada a nossa absoluta dependência de qualquer tipo de moeda. em jeito de conclusão convirá que nem tudo poderá correr bem e que embora a esperança seja a última a morrer é bem provável que ela esteja disposta a isso mais cedo do que esperaria e portanto as suas hipóteses de recuperar os seus vetustos cartões universitários que faziam parte da sua memória e por si mesmos irrecuperáveis são no máximo do tamanho de uma amiba. mas poderás perguntar a ti mesmo: como poderão ter confundido a utilidade de dois ultrapassados cartões de estudante universitário quando os ditos simpáticos seres humanos e muito dados ao contacto humano te ficaram também com o cartão de uma multinacional muito conhecida que vende toneladas de livros, filmes e discos. ah, meus sacanitas, conseguirão eles usar os meus três descontos de seis por cento num dia à escolha ?